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5 de octubre de 2018

Eleições Brasil: a questão Bolsonaro

Conforme as últimas pesquisas, os candidatos a presidente, Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal, e Fernando Haddad, do PT, estariam em um “empate técnico” de 28% na intenção de votos para o primeiro turno eleitoral que ocorrerá no próximo domingo no Brasil. Algumas pesquisas alertam para outro empate, de 40% para cada um, no segundo turno, ainda que tudo indique que, em ambos os turnos, a percentagem maior de indecisos se inclinaria por Haddad.

 

“Fascismo”

Bolsonaro, um personagem imprevisível, com uma trajetória irrelevante de vinte e sete anos no Congresso Nacional, converteu-se no porta-voz fascista de um setor muito amplo dos militares da reserva e conta com o apoio do alto comando do exército. Tem o apoio inquestionável dos grandes usineiros do norte do Brasil e dos latifundiários da soja do sul e do oeste. A Federação de Indústrias de São Paulo está dividida, ainda que a fração que apoia a Bolsonaro seja maioria. Segundo a publicação Brasil Debate, nas fileiras do exército opera uma junta de “Generais Revisionistas”, que “parece reunir meios e propósitos para a disputa nas ruas com a esquerda organizada”. De acordo com estes termos, se o perfil de Bolsonaro não se ajustasse de forma próxima ao do fascismo italiano, poderia se encaixar com o falangismo espanhol, que terminou se desenvolvendo como um aparelho de choque “civil” das forças armadas do general Francisco Franco. Os militares contam com quase cem candidatos ao Congresso ou às legislaturas, e poderiam formar, com os ruralistas e os evangélicos, que se distribuíram em todos os partidos (inclusive no Psol), uma bancada majoritária de direita. É inquestionável que a base social do fascismo brasileiro é bastante estreita – uma ultra-minoria pequeno burguesa. Mas não deve ser descartada para nada frente ao perigo de que os conciliadores e capituladores da cúpula do movimento operário tenham sucesso em dividir as massas, inclusive se existe uma paralisia temporária ou parcial.

A ascensão política deste ressentido social é um resultado da enorme crise de conjunto a qual atravessa o Brasil, e em especial do fracasso do golpe de Estado que levou o vice de Dilma Roussef à presidência. Longe de conseguir a recuperação econômica do país, os golpistas acentuaram a  crise econômica e levaram o Brasil à beira de um “default”.

Os políticos que levantaram a bandeira da ética para substituir o governo de Dilma Rousseff e depois condenar Lula judicialmente, estão acabando, eles mesmos, processados ou presos, e sem eleitores. Os politólogos brasileiros lamentam-se agora do veloz esgotamento do “centro”, cujos candidatos não atingem os dois dígitos das intenções de voto. Excluem, curiosamente, desse “centro” o PT, ao que têm convertido em “extremista”, quando maior é sua direitização. O PT também, de acordo com os dados que são exibidos, está sofrendo uma queda espetacular nas expectativas dos eleitores.

 

Direita, de ré

A proposta do ex presidente Fernando Henrique Cardoso, de que os cinco candidatos do “centro” desistam em benefício de um só, não está sendo ouvida. Foi acompanhado nessa exortação sem futuro pela diretora do grupo do fumo, Suzano. Uma parte importante desse “centro”, longe de escutar a imploração, impulsiona o voto a Bolsonaro – é o que faz o candidato a governador, em São Paulo, Joao Dória, e Antonio Anastasia, em Minas Gerais. A “democracia”’ brasileira prefere a um desclassificado que representa o revanchismo militar.

Em lugar de chamar às massas a mobilizar-se e brigar contra o candidato militar fascista, os dirigentes do PT procuram acalmar as apreensões com o discurso de que a maioria militar não comunga com o fascismo nem o apoia. É a mensagem que tem divulgado Celso Amorim, ex ministro de Relações Exteriores de Lula e da Defesa, de Dilma Rousseff. Várias semanas antes, a candidata a vice de Haddad, do PC do B,  acreditou ser oportuno recordar o caráter “industrialista” da ditadura militar que dominou o país, de 1964 a 1985.

 

As mulheres marcam o caminho

A manifestação mais impressionante do declínio de todo o arco político “democrático” frente ao desafio de Bolsonaro, foi posto claramente pela grande mobilização das mulheres brasileiras contra este fascistão. Nenhum partido tomou a iniciativa do chamado às ruas, e muito menos o PT; frente à ameaça política da direita, os partidos responderam com o apoliticismo. Como ocorre nos Estados Unidos contra Trump, exploram a heterogeneidade social e política da mobilização feminina para neutralizar sua projeção política. As milhões de mulheres que se contataram nas redes e as centenas de milhares que depois desfilaram combativas nas principais cidades marcam o caminho que de nenhum modo conseguirá a cédula eleitoral: a luta física organizada contra as bandas do militarismo fascistizante.

Tudo o que ocorre na véspera das eleições constitui uma confirmação da contundência da nossa caracterização do golpe contra Dilma como um “golpe de estado”, não como um golpe parlamentar, porque nunca teria conseguido se impor sem o apoio das forças armadas. Descartar as mesmas de uma crise política maior é desconhecer o abc do estado moderno. É desconhecer a anistia que estão gozando os militares brasileiros por seus crimes passados, ou inclusive a vigência da justiça militar para os delitos em que incorram os uniformizados.

O naufrágio do “centro” é o testemunho mais claro de que o golpe parlamentar foi uma ficção ou cortina de fumaça. O PT não desafiou a destituição de sua presidenta com a consciência de que tinha o respaldo militar. Um novo governo do PT, com um candidato da direita do partido, além disso, será mais cúmplice do militarismo do que Lula e Dilma foram antes dele. Quem, na esquerda, negou o golpe ou reduziu-o a uma brincadeira parlamentar, deveria desculpar-se. Um politólogo brasileiro, André Barrocal, acaba de concluir que “as eleições de 2018 consolidam o fracasso do golpe” (de 2016), em alusão aos conspiradores parlamentares que agora não recolhem um centésimo dos votos. O fracasso do golpe parlamentar fictício expôs o golpe do alto comando. Com o único recurso do twitter, o comandante em chefe do exército, Vilas Boas, fez anular judicialmente a designação de Lula como ministro de Dilma, uma tentativa inútil para evitar o impeachment, e assegurar que o STF confirmasse a condenação de Lula em segunda instância. Agora segue twittando, em uma série de pronunciamento militar permanente.

 

Trump

Toda a grande imprensa internacional, sem exceção, se pronunciou contra Bolsonaro, da mesma forma que os líderes principais da União Europeia e do Partido Democrata dos Estados Unidos. Caracterizam-no, antes do que uma salvação política, como uma aventura que compromete a “estabilidade”, inclusive a nível continental. Fingem não ver que essa “estabilidade” ficou no passado. Não é nessa direção que olham, no entanto, os “Generais Revisionistas” – mas sim para Trump. De acordo com o relatório antes citado, essa manobra tem em vista uma aliança política com o imperialismo norte-americano, ainda que o Brasil, como a Argentina, dependa cada vez mais do comércio com a China e seus investimentos. De qualquer maneira, Trump deixou claro, na Assembleia Geral da ONU, que vai por uma saída violenta na Venezuela, enquanto outras manifestações assinalam uma unidade de propósito, neste aspecto, com o novo governo uribista da Colômbia. A Colômbia aloja a uma dezena de bases militares ianques e é peça central do Comando Sul do Pentágono.

Na agenda de Trump figura no topo também a agenda contra a China. Bolsonaro pode ser colocado neste trio, ou seja que a crise brasileira tem uma dimensão internacional definida. A ala “democrática” dos governos latinoamericanos, o chamado “grupo de Lima”, opõe-se a este expediente. É, no entanto, claro, que a crise econômica está colocando estes governos em um impasse, como se vê no Peru, Argentina, Costa Rica, Nicarágua e, mais lentamente, o Chile e o Uruguai. Tudo somado, a América Latina entrou de forma definitiva em uma bancarrota de envergadura, que põe sobre a mesa todas as opções políticas, e cada vez mais a agenda de um governo de trabalhadores.

Trump, além disso, encontra-se empenhado em uma luta contra o “populismo” latinoamericano em geral, ainda que reivindique o próprio, de cunho imperialista. Veria um triunfo de Haddad como um tropeço para seu cupincha Macri, que luta judicial e politicamente com o kirchnerismo. As eleições brasileiras, em definitivo, comovem o tabuleiro em  mais de um país – da maioria em bancarrota.

 

“As instituições” – cúmplices

Para desenvolver uma luta de massas – a única que pode derrotar ao fascismo amadurecendo –, é necessário desmascarar sem concessões àqueles que proclamam a “paz social” e a “defesa das instituições”. Que dizem que o fascismo se combate a partir do estado, não fora, nem mesmo contra ele. Não há dúvida que o avanço brutal da crise econômica despertará à luta as massas crescentes, e o mesmo ocorrerá frente ao avanço golpista. Uma derrota eleitoral de Bolsonaro, no segundo turno, não significaria em nenhum momento uma suspensão da ofensiva da direita militar, que se empenhará, pelo contrário, em explorar as contradições, limites e toda a incapacidade do novo governo frente à crise, para explodir o escasso apoio político que o acompanha.

Desmascarar a “democracia” e o PT e Haddad, não é, nem de longe, o que faz o Psol, uma espécie de falsa frente de esquerda. O Psol, que nasceu de uma ruptura do PT, se converteu em seu seguidor nestas eleições, com um candidato a presidente alheio ao partido, imposto pelo próprio Lula. O futuro Congresso brasileiro, com o que pactuaria, mais que nunca, um presidente do PT, terá um caráter bem mais de direita que o atual – o que não é pouco. A correspondente do Clarín assinala, muito sintomaticamente, que a monumental reserva de 380 bilhões de dólares com que conta o Banco Central do Brasil, “não serão suficientes para abastecer a demanda dos capitais que querem evaporar”. É que para além do bilhão de dólares de dívida externa, a Carteira de São Paulo tem milhares de milhões de capitais do estrangeiro, o mesmo que os bancos brasileiros, que financiaram no exterior o “populismo creditício” ao consumo pessoal.

 

Luta de classes

No domingo que vem ficará desenhado o palco do segundo turno, e com isso um agravamento do palco da crise política imediata. Desejamos que nesse novo palco prévio ao segundo turno, o exemplo das mulheres se multiplique por milhões, e por sobretudo, claro, na classe operária. Para isso é necessário desmistificar a ideia de que o país atravessa um impasse ou uma disjuntiva eleitoral, quando enfrenta uma crise descomunal de regime político, inclusive dentro das forças armadas. Essa crise política não poderá ser decidida nas urnas, mas sim em uma luta de classes sem trégua.

 

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